Boi Neon

Iremar (Juliano Cazarré) e um grupo de trabalhadores viajam pelo nordeste do Brasil preparando o gado para apresentações em vaquejadas. Nas horas vagas, Iremar costura várias peças de roupa e sonha em um dia trabalhar no polo de confecção do estado.

Assista ao trailer:

 

Boi Neon mostra o cotidiano de Iremar (Juliano Cazarré), Zé (Carlos Pessoa), Mário (Josinaldo Alves), Galega (Maeve Jinkings) e sua filha Cacá (Alyne Santana) em suas viagens pelo interior do nordeste como preparadores de gado para vaquejadas. Subvertendo clichês, Iremar sonha em ser estilista em uma fábrica no polo de confecção de roupas do agreste pernambucano, enquanto limpa esterco e prepara os bois para o espetáculo nas arenas (não gostaria de atribuir juízo de valor para a atividade, mas ver as cenas dos homens puxando violentamente a cauda dos bois para derrubá-los – “valer o boi” – é angustiante e sofrido). Nas folgas, Iremar costura roupas sensuais para Galega usar em seus shows de dança. A moça é a motorista (e mecânica) do caminhão que os transporta. Nenhum dos dois é homossexual, como algum espectador poderia acreditar caso se apegasse a estereótipos. Entre eles surge Cacá, uma garotinha respondona que apesar de conviver com bois gosta mesmo é de cavalos e se recusa a ir morar com os avós para estudar e ter a chance de uma vida melhor. Assim, Boi Neon caminha entre os contrastes, quebrando conceitos, ao mesmo tempo em que expõe a realidade da vida simples que os personagens vivem, sem nenhuma necessidade de criar uma história focada em sequências lógicas ou clímax como na narrativa padrão.

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Isso causa estranhamento em quem está acostumado a filmes com início, meio e fim, pois aqui tudo parece recortado aleatoriamente, as cenas não são feitas para criar uma história linear. Quando falei que Boi Neon mostra o cotidiano é exatamente isso que ele faz: mostra, sem precisar construir uma trama; apenas exibe, quase como em um documentário ou exposição fotográfica. Os atores estão atuando, emulando sotaques e linguajar popular da região, mas poderia ser qualquer nordestino do semi-árido vivendo sua vida normalmente com uma câmera registrando momentos de seus dias, de forma natural. Naturalidade essa que não se resume a registrar seus afazeres ou momentos de descontração, mas vai além, na exposição de momentos íntimos de forma bastante explícita, revelando corpos nus, práticas sexuais e até mesmo o ato de urinar como funções inatas e instintivas a serem observadas com normalidade (as cenas parecem se demorar de propósito, como para obrigar nosso olhar a se acostumar). É como se o diretor quisesse comparar aquelas pessoas aos animais com os quais lidam: repare na cena em que vários homens tomam banho juntos; a mim pareceu os bois quando Iremar pulveriza inseticida de carrapato momentos antes. Os seres humanos são o próprio gado, aprisionados naquela rotina, sem ter como fugir. Quando o Ze é convocado às pressas para cuidar da égua Lady Di que só ele conseguiu domar, ele vai na mesma hora, acabando de acordar, afinal, que outra escolha teria? Não é como se pudesse negar; ele aceita seu destino e segue, como os bois no rebanho.

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O que faz de Boi Neon um bom filme é o tratamento sensível em meio à simplicidade e aridez da vida no sertão, onde ainda assim há espaço para a arte, a delicadeza e a comicidade, proveniente das situações e conversas comuns do dia a dia. Além disso, sua beleza reside na preocupação em exaltar as aspirações daquelas pessoas, os sonhos que elas têm diante daquela vida que parece que nunca vai mudar, sonhos que parecem impossíveis de se realizarem mas mesmo assim continuam sonhando (eu sei bem o que é isso). Cacá ama cavalos, mas a mãe diz que ela nunca vai poder ter um, ao que Iremar responde “isso aí não tem como saber né?” e por mais absurdo que soe aos ouvidos de Galega, a gente espera que a garota consiga de alguma forma realizar seu sonho, do mesmo jeito que espera que Iremar realize o dele (e também esperamos realizar os nossos) . O final, abrupto, dá um sentimento de vida que segue, de continuar sendo levado sem escolha até o dia que mudar, ou não. É melancolicamente poético quando boi neon do título aparece sujo de tinta correndo no escuro sem ter pra onde correr, brilhando no meio da escuridão como um sonho de liberdade, dos bois mas sobretudo das pessoas. Esperança cintilante que pulsa dentro da gente querendo se libertar.

Um bom filme pra você!

 

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Título original: Boi Neon (Brasil | Uruguai | Holanda | Espanha, 2016)

Direção e Roteiro: Gabriel Mascaro

Gênero: Drama

IMDB: 7,1

 

 

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