O Grande Hotel Budapeste

No período entre as duas guerras mundiais, o famoso gerente de um hotel europeu conhece um jovem empregado e os dois tornam-se melhores amigos. Entre as aventuras vividas pelos dois, constam o roubo de um famoso quadro do Renascimento, a batalha pela grande fortuna de uma família e as transformações históricas durante a primeira metade do século XX.

Assista ao trailer:

 

 

O texto a seguir contém spoilers

O filme começa com uma garota parando em frente a um busto do autor do livro que tem nas mãos: O Grande Hotel Budapeste. Ela vira o livro e a câmera foca na sobrecapa onde aparece uma foto do autor, em preto e branco. Vemos então o que teria sido o momento em que a fotografia foi tirada, no ano de 1985, e o autor (Tom Wilkinson) começa a falar olhando para a câmera:  “É um engano muitíssimo comum pensarem que a imaginação do escritor trabalha sem parar, que vive inventando um suprimento infinito de casos e incidentes, que ele simplesmente rire suas histórias do nada. A bem da verdade é ao contrário; quando descobrem que é escritor trazem personagens e eventos até você e se mantiver sua habilidade de observar e ouvir com atenção, as histórias vão continuar a procurá-lo sua vida inteira.  Àquele que muito contar as histórias de outros, muitas histórias serão contadas. Os acontecimentos seguintes me foram descritos exatamente como os apresento aqui, e de forma totalmente inesperada.”

O autor passa a contar a história de quando se hospedou, em agosto de 1968, no Hotel Budapeste, na cidade de Nebelsbad, República da Zubrowka (local fictício situado na Europa): “um hotel fascinante e bem planejado que já fora muito bem conceituado […] e começava a descambar para o desleixo e futura demolição”. Passamos a acompanhar o momento de sua chegada, enquanto ele continua a narrar, agora a voz e aparência mais jovem (Jude Law), mesclando a narração com os acontecimentos. Ele pergunta ao atual concierge, M. Jean (Jason Schwartzman), quem é o homem solitário sentado próximo a eles e descobre ser o dono do hotel, Mr. Zero  Moustafa (F. Murray Abraham). Depois os dois se encontram na casa de banhos e o autor toma a liberdade de perguntar ao dono como ele chegou a comprar o hotel. “Não comprei. […] Se realmente se interessou será um prazer, na verdade um privilégio, lhe contar “minha história” do jeitinho que aconteceu”.

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Mr. Moustafa inicia a  explicação de como o hotel acabou em suas mãos. “Tudo começa com o antecessor de nosso amigo em comum, o querido concierge original do Grande Budapeste, M. Gustave”. Somos levados ao ano de 1932 e apresentados a M. Gustave (Ralph Fiennes) e ao jovem Zero (Tony Revolori), que havia acabado de iniciar o trabalho como mensageiro do Budapeste. O desenvolvimento dessa nova história ocorre em sua maior parte dentro do hotel, ou tem o hotel e seus funcionários como protagonistas dela. Perceba que a narrativa se destaca pelas histórias dentro da história (o livro dentro do filme; a história do autor do livro ao se hospedar no hotel; a história de Gustave e de Zero até se tornar dono do lugar, tudo contido no livro O Grande Hotel Budapeste e ganhando vida no filme O Grande Hotel Budapeste). Só esse detalhe já é interessante, mas sinceramente é um filme tão deslumbrante de se ver que a história poderia nem ser boa ou bem elaborada, e ainda assim o deleite visual sozinho já valeria a pena.

De qualquer forma, o enredo é capaz de envolver e fazer rir. O humor vem de diálogos e situações absurdas, e até as cenas mais violentas – como cabeça e dedos cortados e um grande tiroteio  – são risíveis pela forma como são retratadas. É delicioso acompanhar a aventura de M. Gustave e Zero para desvendar os mistérios de uma morte, do roubo de um quadro e provar a inocência de Gustave nos casos apresentados, tudo isso rodeado de personagens e vilões caricatos, perseguições com miniaturas animadas, fugas super elaboradas e tendo o início de uma guerra como plano de fundo. O desenrolar da trama transcorre de maneira tão leve e gostosa que nem dá pra sentir o tempo passar, e nos deixa levezinhos e saudosos no final, não apenas do que e como vimos acontecer, mas principalmente da estonteante beleza e esmero técnico de O Grande Hotel Budapeste. A trilha sonora, a fotografia, direção de arte e figurinos são absolutamente fantásticos, a caracterização e a maquiagem incríveis – Tida Swinton, por exemplo, surge irreconhecível na pele da Madame D.

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Além disso, o elenco recheado de estrelas (Bill Murray, Willem Dafoe, Harvey Keitel, Edward Norton, Owen Wilson) e os formatos de tela diferentes em cada época, mostram que Wes Anderson decidiu exagerar propositalmente em sua excentricidade aqui. As atuações teatrais, a simetria e as cores sempre presentes nas obras dele (veja em O Fantástico Sr. Raposo, que já indicamos) são levadas ao ápice; o filme inteiro é centralizado e possui uma paleta de cores arrebatadora, chegando a hipnotizar.

Os cortes hábeis, os planos frontais e os movimentos de câmera deslizando para o lado sem sair do lugar (panorâmica horizontal) dão a impressão de um olhar perscrutador nos levando para a próxima cena e próximo ambiente. A quebra da 4ª parede (quando o personagem olha para a tela se dirigindo ao público) acontece muitas vezes, reforçando a ideia de nos colocar como plateia daquilo que o autor conta, conduzindo nosso olhar dentro de cada história. Enquadramentos e imagens que parecem pinturas (ou gravuras de livros), e as referências à arte através de poesias e quadros, completam o trabalho artístico impecável de Anderson, que escreveu o roteiro baesado em escritos do romancista e poeta austríaco Stefan Zweig.

O Grande Hotel Budapeste, como não poderia deixar de ser, concorreu a 9 Oscars, o maior número de indicações em 2015: melhor filme, diretor, roteiro original e fotografia (perdeu todos para Birdman), edição/montagem (perdeu para Whiplash), vencendo nas categorias figurino, maquiagem, direção de arte e trilha sonora. É uma fábula lindíssima e divertida, onde a chave para o que acontece e como tudo deve ser percebido, nos é dada a partir da fala inicial do autor descrita no primeiro parágrafo, como em uma nova versão do  famoso“era uma vez”. Cabe ao espectador (mesmo que não seja um escritor) ouvir e observar com atenção o que Wes Anderson tem a contar e exibir em sua singularidade narrativa e estilística, que o fazem se destacar cada vez mais entre os cineastas autorais de Hollywood.

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Título original: The Grand Budapest Hotel (Estados Unidos | Alemanha | Reino Unido, 2014)

Direção e Roteiro: Wes Anderson

Gênero: Comédia | Aventura

IMDB: 8,1

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