O Lagosta

Em um futuro próximo, uma lei proíbe que as pessoas fiquem solteiras. Qualquer homem ou mulher que não estiver em um relacionamento é preso e enviado ao Hotel, onde terá 45 dias para encontrar um(a) parceiro(a). Caso não encontrem ninguém, eles são transformados em um animal de sua preferência e soltos no meio da Floresta.

Assista ao trailer:

 

 

OBS.: O texto a seguir contém spoilers

Já falei aqui sobre In Your Eyes, um romance sci-fi interessante no meio de tantos filmes românticos clichês. Dessa vez, trago outra abordagem diferenciada sobre a temática das relações amorosas. Acredite: você nunca assistiu a uma comédia-dramático-romântica como essa. O Lagosta (sim, O, apesar de A Lagosta também ser válido) é uma distopia que se passa em uma sociedade alguns anos à frente da nossa, onde é obrigatório manter um relacionamento. Os habitantes da Cidade são vigiados e têm a vida inteira moldada e controlada por essa exigência e para auxiliar na tarefa existe um hotel onde os solteiros se hospedam por 45 dias, tendo a chance de conhecer alguém e iniciar uma relação.

Assim, David (um Colin Farrell barrigudo quase como o visto em Quero Matar meu Chefe) faz seu cadastro no estabelecimento e acompanhamos sua estadia de 45 dias em busca de sua companheira. Ele recebe todas as informações necessárias e fica sabendo de todas as regras que terá que cumprir durante sua permanência no Hotel. Uma das atividades a serem cumpridas é caçar solteiros fugitivos nas redondezas, e a cada solteiro capturado um dia de permanência no hotel é adicionado. Sim, existem solteiros fugitivos, pois sempre há quem não aceite determinadas imposições e prefira viver do jeito que quiser.

Logo dá pra perceber que O Lagosta não é um filme sobre sentimentos. A crítica sobre a cobrança acerca do status de relacionamento é clara, mas não se limita à obrigação de formar um casal: aqui a crítica vai além, alcançando aqueles que levantam uma espécie de “bandeira extremista anti-relacionamentos”. Os solteiros (grupo que conta com as presenças de Léa Seydoux, Rachel Weisz e Michael Smiley) embora se rebelem contra o sistema e vivam isolados na Floresta, também acabam criando seu próprio regulamento e código de conduta, expondo seus paradoxos ao se forçarem a se manter naquela condição, desdenhando dos casais e do sentimento entre eles com uma postura presunçosa de superioridade por não aceitarem se curvar às exigências da sociedade, mas sustentando uma obrigatoriedade em permancer solteiro, com normas tão rígidas para não “se apaixonar” quanto os que devem encontrar seu par.

O Lagosta tem diálogos insólitos e situações absurdas que satirizam e alfinetam os dois lados o tempo inteiro, passeando entre metáforas e retratando ocorrências cotidianas de maneira bizarra (bastante bizarras, às vezes), mas facilmente identificáveis. Quando ouvimos as instruções para David conseguir uma companheira: “Você deve escolher uma parceira que seja um tipo de animal similar a você. Um lobo e um pinguim jamais viveriam juntos. Nem um camelo e um hipopótamo. Seria absurdo. Pense nisso.”, sabemos bem do que a gerente do hotel está falando. Quando uma das hóspedes diz: “Sabia que estava mentindo. Não sei por que fez isso, já que sabe muito bem que uma relação não pode se basear em mentiras” ou quando assistimos às demonstrações das diferenças entre pessoas sozinhas versus acompanhadas e vemos uma das mãos de David ser amarrada às costas para comprovar como é difícil viver sozinho, também.

A busca por alguém com características iguais à nossa, que supostamente indicam afinidade, o ~recebimento~ de uma criança para salvar a relação, as conversas superficiais que mantemos a fim de estabelecer o mínimo vínculo que seja, a preocupação em mudar quem somos para nos encaixarmos no que o outro gosta, a ilusão de acreditar que defender a ditadura da solidão significa viver livremente sem ninguém para impor limites, a dúvida sobre os verdadeiros sentimentos e até onde somos capazes de ir por amor, enfim, todo o circo e rituais que envolvem os relacionamentos – ou a falta deles – estão lá, sendo ridicularizados e tratados com um humor peculiar que faz a gente se sentir estranho ao constatar que é daquele jeito mesmo (ainda que em menor grau) e de certa forma é até engraçado, mas ao mesmo tempo patético e deprimente.

O filme tem uma queda no ritmo depois de mais ou menos 1h20m (são 2h de duração) e adianto que o final pode não agradar muita gente, embora seja a intenção mantê-lo aberto a interpretações. Mesmo assim, vale reservar um tempinho para assistir a essa crítica social feita com tanta, mas tanta originalidade que vai te deixar com a “cara na poeira” (no bom ou no mau sentido, você escolhe). As atuações robóticas, as interações mecânicas, a narração que antecipa os eventos (e por vezes é reduntante), a trilha cômico-dramática pontuando os momentos mais nonsense ou de clímax (Tam! tam!tam! Tam!tam!tam!) e a visão sarcástica sobre o comportamento humano, repleto de ambiguidades e contradições, fazem de O Lagosta uma grande tiração de sarro de si mesmo e sobretudo da sociedade e suas imposições. O filme proporciona uma experiência divertida e bem esquisita, é verdade, mas que acaba por revelar o quanto nós seres humanos somos igualmente esquisitos.

Um bom filme pra você!

 

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Título original: The Lobster ( Grécia |Irlanda | Alemanha| Reino Unido | França, 2015)

Direção: Yorgos Lanthimos

Roteiro: Yorgos Lanthimos | Efthymis Filippou

Gênero: Comédia | Drama | Romance

IMDB: 7,2

 

 

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Um comentário sobre “O Lagosta

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