Nise – O Coração da Loucura

Ao voltar a trabalhar em um hospital psiquiátrico no subúrbio do Rio de Janeiro, após sair da prisão, a doutora Nise da Silveira (Gloria Pires) propõe uma nova forma de tratamento aos pacientes que sofrem da esquizofrenia, eliminando o eletrochoque e lobotomia. Seus colegas de trabalho discordam do seu meio de tratamento e a isolam, restando a ela assumir o abandonado Setor de Terapia Ocupacional, onde dá início a uma nova forma de lidar com os pacientes, através do amor e da arte.

Assista ao trailer:

 

 

OBS: O texto a seguir contém spoilers

Nise da Silveira foi uma psiquiatra brasileira nascida em Alagoas em 1905 e que revolucionou a medicina psiquiátrica no Brasil e no mundo a partir de meados da década de 1940, ao propor abordagens inovadoras baseadas na realização de diversas atividades para a recuperação dos pacientes em oposição à lobotomia e ao eletrochoque, métodos de tortura difundidos na época para tratamento de diagnosticados com esquizofrenia e outro distúrbios mentais.

Formada pela UFBA  e aluna de Carl Jung (fundador da psicologia analítica), Nise foi também uma das primeiras mulheres a se formar em medicina no país, tendo sido a única mulher de uma turma de 157 homens. Ao longo de sua carreira, Nise da Silveira divulgou o trabalho de Jung, escreveu livros, fundou o Museu de Imagens do Inconsciente (dentro do centro psiquiátrico onde se passa o filme), a fim de preservar os trabalhos produzidos por seus pacientes (base de pesquisas para a compreensão dos mesmos), inspirou filmes (o cineasta Leon Hirszman produziu a trilogia Imagens do Inconsciente entre 1983 e 1986, com roteiro da própria Nise), e obteve reconhecimento nacional e internacional, recebendo diversos prêmios, títulos e condecorações. Ela faleceu em 1999, aos 94 anos. O filme Nise – O Coração da Loucura, acompanha o empenho da médica na disseminação de técnicas terapêuticas mais humanizadas no tratamento de distúrbios psiquiátricos.

Após sair da prisão (onde permaneceu por 18 meses acusada de comunista pela “posse de livros marxistas”), Nise volta ao exercício da psiquiatria no ano de 1944, no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II (atual Instituto Municipal Nise da Silveira) , situado no Engenho de Dentro, bairro do Rio de Janeiro. Já na primeira (e significativa) cena, a vemos diante de uma grande e opressiva barreira de metal com uma porta onde bate insistentemente por um longo minuto, até que alguém apareça para permitir a sua entrada. Ouvem-se gritos e Nise é conduzida a um auditório onde novos e modernos tratamentos psiquiátricos são apresentados. Única mulher na sala e também a única a não usar um jaleco branco, ela ouve horrorizada a descrição das práticas cirúrgicas da lobotomia, com o uso de um picador de gelo, e assiste a uma demonstração angustiante de eletrochoque. Contrariada, Nise contesta a direção do hospital e se recusa a utilizar tais práticas, afirmando que não acredita na cura através da violência. Ela então é remanejada para o Setor de Terapia Ocupacional, menosprezado pelos demais médicos.

A partir daí, Nise passa a lidar com a preocupação do marido sobre os rumos de sua carreira, a má vontade de alguns funcionários, o descaso do restante da equipe de psiquiatras e a dificuldade em conseguir a atenção e colaboração dos pacientes (a quem chama de clientes). Porém, mesmo enfrentando um desafio maior do que imaginava, Nise não desiste de compreender e ajudar os clientes em sua reabilitação, introduzindo carinhosa e pacientemente terapias baseadas na expressão da criatividade e do afeto, e oferecendo um tratamento mais humanizado e interativo através da realização de atividades recreativas, pintura e modelagem, acompanhadas por música, convívio com animais e contato com a natureza. Aos poucos os internos se tornam mais calmos, atenciosos e participativos, com alguns deles revelando surpreendente talento e sensibilidade na criação de seus quadros e esculturas. Nota-se também a mudança no comportamento dos funcionários, antes receosos, distantes, indiferentes e agressivos.

Enquanto isso, Nise segue sem contar com a cooperação dos colegas, sendo ridicularizada, desacreditada e recebendo constantes broncas da direção do hospital, ainda que os progressos provenientes de sua abordagem terapêutica nada convencional para a época sejam perceptíveis. Por outro lado, além de transformar os funcionários em seus aliados e promover melhoras significativas nas pessoas a quem auxilia (inclusive convencendo algumas famílias a não permitirem a realização de lobotomias), ela conta com o apoio de artistas plásticos e críticos de arte, entre eles Mario Pedrosa, que chega a escrever sobre os artistas do Engenho de Dentro para um jornal e organizar exposições.

Fernando Diniz (Fabrício Boliveira), Adelina Gomes (Simone Mazzer), Carlos Pertius (Julio Adrião), Emygdio de Barros (Claudio Jaborandy), Raphael Domingues (Bernardo Marinho), Lúcio Noeman (Roney Villela) e Octávio Ignacio (Flavio Bauraqui) são os clientes (e artistas) acompanhados no filme (conta-se parte da história de vida deles) e que se destacam no desenvolvimento das obras de arte e no progresso da terapia (saiba mais sobre esses e outros artistas do instituto clicando aqui).

Nise – O Coração da Loucura não chega a ser uma biografia, mas retrata com competência parte da trajetória dessa mulher que lutou contra o machismo e o pensamento cruel e desumano que rodeava a psiquiatria convencional nas décadas de 1940 e 1950. As atuações são execelentes, a caracterização e entonação de Gloria Pires conferem um ar de firmeza à personagem, a ambientação do hospital é desoladora, com suas instalações precárias e mal iluminadas; há algumas cenas lindas e comoventes, como o primeiro contato de Fernando com a pintura e o passeio no parque onde todos experimentam a liberdade e se encantam com o sol, o riacho, o canto dos pássaros e o vento nas folhas das árvores, revelando a sensibilidade e delizadeza com que a história nos é apresentada.

O roteiro é pontuado por algumas frases de efeito, como no momento em que Nise é questionada ceticamente por um dos médicos quando algum dos pacientes pelos quais ela é responsável receberá alta e ela responde: “não sei, mas tenho certeza que hoje eles estão melhores do que estavam antes”. Depois de tudo a que assistiu, observando a dedicação, o amor e o respeito de Nise da Silveira ao lidar com aqueles seres humanos e sabendo dos avanços e comprovação da eficiência dos métodos difundidos por ela e utilizados atualmente, o espectador não tem mesmo nenhuma dúvida disso.

Um bom filme pra você!

 

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Título original: Nise – O Coração da Loucura (Brasil, 2016)

Direção: Roberto Berliner

Roteiro: Roberto Berliner | Flávia Castro | Maurício Lissovski | Maria Camargo | Chris Alcazar | Patricia Andrade |Leonardo Rocha

Gênero: Biografia | Drama | Histórico

IMDB: 7,8

 

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