#1bomcurta: Comida

Comida é um curta de 1992 que mistura de forma extraordinária as técnicas de live action com stop motion, produzido por Jan Svankmajer, artista surrealista checo conhecido por essas e outras técnicas de animação em seus trabalhos. O curta é dividido em três partes associadas à refeição humana: Café da Manhã, Almoço e Jantar. Em 17 minutos e sem diálogos, Svankmajer faz uma genial (e tecnicamente incrível) crítica à sociedade através do ato de comer, mostrando suas relações com o cotidiano predatório e autodestrutivo em que o homem está inserido. Veja como a comida diz mais sobre nós do que pensamos.

OBS: O texto a seguir contém revelações sobre o enredo (spoilers). Caso não queira saber o que acontece no filme, pule para o final da página e assista ao vídeo antes de ler)

 

Na 1ª parte, Breakfast (café da manhã), aparecem 2 pessoas se revezando em uma mesa onde uma dessas pessoas, transformada em uma máquina velha, serve a comida e a outra consome. Perceba que as refeições são sempre as mesmas, apenas linguiça, um molho que parece mostarda, uma fatia de pão e refrigerante, servidos em pratos de papel com talheres de plástico; os gesto também são sempre os mesmos: olhar o menu, contar as moedas, chutar a máquina que enguiça, fazer um risco na parede. No final vemos que há uma imensa fila do lado de fora esperando para repetir o mesmo ritual indefinidamente.

Na 2ª parte, Lunch (almoço), dois homens também dividem a mesma mesa, mas dessa vez cada um disputa a atenção de um garçom que nunca lhes dá bola. Resta a eles comerem tudo o que vêem pela frente. Um é aparentemente um homem bem de vida, com roupas e cabelos alinhados, já o outro aparenta ser mais humilde, com roupas surradas e cabelos desgrenhados. Este último sempre imita o que o primeiro faz, embora seja visível sua dficuldade em repetir os passos com tamanha destreza. Não restando nada mais que pudessem comer, o homem rico decide então devorar o homem pobre.

Na 3ª e última parte, Dinner (jantar), um homem está sozinho em um restaurante sofisticado, e na pequena mesa há inúmeros ingredientes e especiarias, os quais ele experimenta com certo tédio. Não satisfeito mesmo com toda a diversidade de pratos disponíveis, o homem começa a comer a própria mão, temperando-a com todos os condimentos à seu dispor. Em seguida, um atleta come a própria perna e uma mulher os próprios seios. No final, um homem começa a comer as próprias partes íntimas, mas ao perceber a presença da câmera ele esconde o órgão sexual e enxota a câmera com a mão.

Desculpem por contar tudo o que acontece no curta, mas aqui não importa necessariamente o que acontece e sim porquê acontece, ou seja, o que Svankmajer quer mostrar com isso e como nós entendemos suas intenções. Sabemos que cada ato representa uma crítica, a princípio sobre como uma simples refeição pode ser segregante, e, mais profundamente, relacioná-la à divisão de classes e comportamentos sociais do homem moderno. Essa metáfora é percebida a partir dos cenários, roupas, pratos, gestos e ações: o estabelecimento sujo e desarrumado e a comida sempre igual do primeiro momento (classe baixa, mais pobres), a toalha e o arranjo enfeitando a mesa; o pobre tentando copiar o mais rico e acabando por ser consumido no segundo (classe média, burguesia x proletariado, exploração); toalhas sobrepostas, luminárias, plantas, vários alimentos sobre a mesa, smoking, o mais rico angustiado com tantas opções (classe alta, maior renda).

Quando Comida chega em sua metade, já é possível imaginar como tudo vai acabar, pois depois de termos visto o homem transformado na máquina que o alimenta e alimenta os demais necessitados e o homem rico devorar o homem pobre sem piedade, o próximo passo só poderia ser a autofagia – comer a si próprio, levando a ideia do “você é o que você come” ao extremo da literalidade, embora Svankmajer não se limite ao sentido literal e expanda sua critica à sociedade e ao modo como o homem vive sob a máscara da civilização, consumindo e explorando o máximo que consegue de tudo e todos ao redor, para no fim acabar por destruir a si mesmo (como na frase de Thomas Hobbes que diz “o homem é o lobo do homem”). Comida é sem dúvida um excelente exemplo da genialidade temática, técnica e estética desse artista checo e merece muito a sua atenção.

Assista:

 

Um bom filme pra você!

 

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Título original: Jídlo (República Checa, 1992)

Direção e Roteiro: Jan Svankmajer

Gênero: Animação

IMDB: 8,1

 

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