A Rosa Púrpura do Cairo

Durante a Grande Depressão, Cecília (Mia Farrow), ma garçonete que sustenta o marido desempregado (Danny Aiello), costuma fugir da realidade assistindo sessões seguidas de seus filmes prediletos. Ao assistir pela quinta vez o filme “A Rosa Púrpura do Cairo”, ela tem uma grande surpresa quando vê o herói Tom Baxter (Jeff Daniels) sair da tela e lhe oferecer uma nova vida.

Para ver o trailer, clique aqui

 

A Rosa Púrpura do Cairo é um dos filmes mais metalinguísticos que já vi. Woody Allen explora o recurso de falar sobre um filme dentro de outro filme de maneira genial. Ele não se contenta em fazer um personagem transpor a tela e interagir com o público do cinema; ele interage com o próprio ator que o interpreta e os demais personagens do filme de onde ele saiu ficam tão confusos quanto os espectadores (do cinema dentro do filme e nós), enquanto aguardam o retorno do personagem fujão.

Tom Baxter  é o personagem do filme A Rosa Púrpura do Cairo, que se passa dentro do filme de mesmo nome que é  a dica de hoje. Ele percebe que uma espectadora,  Cecília, já assistiu ao filme várias vezes e decide sair da tela para conversar com ela: “Darei uma volta, continuem sem mim!”. Os outros personagens não conseguem sair e ficam apavorados quando sugerem que desliguem o projetor “Não desligue! Fica tudo escuro, nós desaparecemos! Não entendem o que é virar nada, ser aniquilado!”  Tem início uma confusão generalizada,  entre o elenco do filme exibido no cinema, entre o público presente e a gerência do estabelecimento e entre a gerência e os produtores de A Rosa Púrpura do Cairo, afinal nunca um personagem havia abandonado um filme antes!

A Rosa Púrpura do Cairo (a dica do dia e não o filme dentro dele) se passa durante a Grande Depressão, na década de 1930, período em que a falta de esperança imperava, uma vez que a crise econômica gerou muitos fechamentos de fábricas e desemprego, por exemplo. Cecília é uma garçonete apaixonada por cinema que vive com o marido desempregado (justamente após o fechamento da fábrica onde trabalhava), e além de sustentá-lo, ela ainda aguenta suas agressões verbais e físicas diariamente. Cecília então encontra conforto nos filmes, onde a ilusão de vidas glamurosas e com finais felizes a faz sonhar acordada. Vivendo sempre no mundo da lua, Cecília acaba demitida, e para superar o baque ela vai novamente ao cinema. E então Tom Baxter, um coadjuvante do filme a que assiste – A Rosa Púrpura do Cairo – sai do filme e se mostra genuinamente interessado em transformar a vida dela para sempre.

O problema é que Tom, sendo um personagem fictício, não sabe como a vida é na realidade, seu mundo se baseia somente no que está escrito no roteiro e nas técnicas e instrumentos utilizados na realização de filmes. O seu dinheiro é de mentira, sua habilidade na direção de um automóvel é uma farsa, o champagne que toma é na verdade refrigerante. Tom não se descabela, não se machuca, não sangra; ele também é incapaz de cometer qualquer ~deslize humano ~ por mais tentador que seja, porque sendo um personagem “do bem” com valores puros de amor e lealdade, nada o faz se desvirtuar do caminho. Cecília sabe que seria ótimo viver como nos filmes, mas seria suficiente? Assim, ela entra em um dilema de escolher uma vida superficial e repetitiva baseada em um roteiro pré-escrito, porém cheia de luxo e onde tudo termina bem ou encarar a realidade de uma vida dura, feita de altos e baixos, porém repleta de surpresas e diversas possibilidades e oportunidades.

A Rosa Púrpura do Cairo é engraçado e leve, mas mesmo assim traz uma série que questionamentos e exposições sobre o funcionamento do cinema e o lugar que ocupa em nossa vida. Cecília deixou que a ilusão proporcionada pelo cinema a dominasse e ela não tinha forças para fazer nada diferente de sonhar. O momento que o país atravessava aumentava sua falta de perspectiva e ela se via presa em um ciclo vicioso. Quando um dos empresários responsáveis pelo filme diz  “os reais querem vidas fictícias e os fictícios querem a vida real” sabemos bem o que significa, afinal, quantas vezes já nos pegamos aéreos sonhando com uma vida cinematográfica a fim de fugir da complicada realidade que nos aflige, do mesmo jeito que Cecília? Infelizmente não dá para fazer disso nossa razaõ de viver, pois existem outras coisas que demandam e merecem nossa atenção. Por isso, A Rosa Púrpura do Cairo também tem um tom melancólico, um tanto crítico, embora a cena final – ao som de Cheek to Cheek, cuja letra diz Heaven /I’m in heaven/And my heart beats so that I can hardly speak/ And I seem to find the happiness I seek – mostre que não importa o quanto a vida nos decepcione, o cinema sempre estará lá para nos confortar.

O figurino e ambientação retratam a época de maneira eficiente, as interpretações de Mia Farrow e Jff  Daniels são ótimas, mas é nos diálogos que reside a força de A Rosa Púrpura do Cairo, sempre reforçando o caráter metalinguístico. Eu assisto anotando os pontos que acho revelantes e nesse me vi transcrevendo quase todas as falas. O filme concorreu ao Oscar de Melhor Roteiro Original, tendo sido indicado junto com Brazil, A História Oficial, De Volta pro Futuro e A Testemunha, que foi o vencedor.  A Rosa Púrpura do Cairo é um filme necessário a quem gosta de cinema, tanto pela sua estrutura quanto pela mensagem que intenciona passar. É um excelente exemplo para entendermos por quê gostamos de cinema, que mesmo feito há 30 anos não perde seu valor. Vamos ver filme porque esperar pelos meteoros viver é difícil.

Um bom filme pra você!

 

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Nome original: The Purple Rose of Cairo (EUA, 1985)

Direção e Roteiro: Woody Allen

Gênero: Comédia| Fantasia| Romance| Drama

IMDB: 7,8

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2 comentários sobre “A Rosa Púrpura do Cairo

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