Onde Vivem os Monstros

Max (Max Records) é um garoto de uns 8 ou 9 anos de idade que vive com a mãe (Catherine Keener) e a irmã (Pepita Emmerichs), que não têm tempo de brincar o garoto. Solitário, Max usa a imaginação para inventar mundos onde vive as mais variadas aventuras. Um dia, Max faz malcriações com a mãe ao vê-la com um amigo em casa (Mark Ruffalo). Como castigo, é mandado para o quarto sem jantar mas ele resolve fugir e vai parar em uma misteriosa ilha com habitantes bem esquisitos. Baseado no livro homônimo de Maurice Sendak, publicado em 1963.

Para ver o trailer, clique aqui

OBS: Tem na Netflix

O texto a seguir contém muitos spoilers

Difícil falar sobre coisas que amamos. Eu ia deixar esse filme para qando estivesse pronta, mas conclui que esse dia nunca chegaria se eu continuasse adiando. Decidi então que seria hoje. Principalmente porque soube que vai sair do catálogo da Netflix no dia 14 de julho. Tem que correr se não quiser ter trabalho de procurar pela internet, caso te interesse o bastante.

Sempre tento escrever da maneira mais leve e didática possível, para que o conteúdo seja assimilado tanto para quem entende de cinema quanto para quem assiste por diversão sem entender muito bem como o cinema funciona, em sua totalidade. Costumo pensar em minha mãe, me lembrando de quando tinha que explicar os filmes a que assistíamos juntas. É importante para mim que ela saiba porque eu gosto das coisas que gosto, e nem sempre é fácil para ela entender. Acredito que Onde Vivem os Monstros é um desses filmes que eu tenha que explicar um pouco, uma vez que a história de um garoto mimado que foge de casa e brinca com uns monstrengos em uma ilha pode ser encarada como algo bobo com significado raso, somente para entreter crianças.

Pra começar, Onde Vivem os Monstros é um filme sobre infância, porém não é feito para crianças. Pode ser divertido para elas assistirem, é verdade, assim como pode ser assustador também (isso entrou em debate durante sua divulgação e exibição no cinema). Mas a mensagem do filme definitivamente não vai ser compreendida por crianças na idade do Max (embora eu possa estar subestimando-as, né?). E vamos combinar: o filme é bem estranho (ao menos num primeiro olhar desinteressado). O livro no qual ele se baseia tem apenas 33 páginas e cerca de 200 palavras, esse sim é infantil (mas claro que serve para qualquer adulto); Spike Jonze (diretor e roteirista de Her ❤) toma a liberdade de reinventá-lo de uma maneira menos explícita, explorando psicologicamente as nuances da personalidade de Max – interpretado por Max Records  em uma atuação espetacular. O design e efeitos visuais dos monstros a que o título se refere, escancaram toda a expressividade de cada um e a trilha sonora nos embala com ternura para dentro… da história.

No início, eu odiei o Max. Na minha opinião, não passava de um garoto birrento para o qual, assim como sua irmã, eu não dava a mínima bola para a solidão em que vivia. Max praticamente implora por atenção em suas atitudes, mas todo mundo tem sempre alguma coisa mais importante para fazer do que brincar com uma criança e entender porque ela age do jeito irritante que age. O quarto de Max é decorado com seus desenhos de monstros e rabiscos – que tomam a tela durante os créditos (achei isso muito legal), e ele brinca sozinho fazendo da neve um abrigo, dos lençóis da cama o mar para navegar e dos bichos de pelúcia seus companheiros prestes a embarcar numa nave espacial fugindo de um lobo. Quando a mãe, enquanto trabalha, lhe pede para contar uma história, Max a inventa na hora: “Era uma vez uns prédios. Eles eram muito altos e podiam andar. E então havia vampiros. Um dos vampiros mordeu o maior dos prédios e suas presas quebraram. Então o resto dos dentes caiu e ele começou a chorar. Então os outros vampiros disseram: ‘Por que você está chorando? Não eram só dentes-de-leite?’.  E ele disse: ‘não, eram meus dentes definitivos’. E os vampiros perceberam que ele não poderia ser mais um vampiro e o abandonaram. Fim”

Max vai para a escola e ouve aterrorizado seu professor falar sobre a morte do Sol e outras catástrofes que poderiam atingir a Terra. À noite, percebe que sua mãe tem uma companhia masculina (seus pais são separados), ouvindo vozes e risos alegres vindos do andar de baixo. Ele veste sua fantasia de lobo e vai até a mãe, que estava preste a servir o jantar. Ele não entende porque raios ela decide utilizar milho congelado na refeição, grita pela irmã quando a mãe pede para ele ir até o quarto chamá-la, e vendo que a mãe vai se irritando cada vez mais ele sobe na mesa e grita “Mulher, me alimente!” . Diantes dos pedidos da mãe para ele descer da mesa, Max responde gritando “Eu vou devorar você!” e sai correndo, a mãe atrás. Quando ela o alcança, dizendo “O que há de errado com você? Esse não é o comportamento aceitável que eu…” Max a interrompe: “Eu não sou aceitável!”, lhe dá uma mordida e sai correndo pela rua, até adentrar uma floresta, onde só pára ao ouvir som de água próximo. Vê um barco e entra nele, navegando sozinho noite e dia até chegar a uma ilha.

Lá, Max vê criaturas estranhas no meio de uma discussão e uma das criaturas destruindo coisas, sem contar com o apoio dos companheiros. Ver a criatura se lamentar por estar sozinha naquela empreitada faz Max se compadecer (ou o correto seria se identificar?) e então prontamente vai ajudá-lo a destruir, sem saber que se tratavam das casas dos monstros. A essa altura, na primeira vez em que assisti, eu estava achando Onde Vivem os Monstros um filme BIZARRO, mas a curiosidade foi maior; era uma bizarrice boa, de alguma forma que eu não conseguia explicar mas tampouco parar de ver. Os outros monstros decidem devorá-lo, mas Max se impõe e ordena que eles fiquem quietos, dizendo ser muito poderoso e que criaturas maiores que aquelas haviam sido por ele conquistadas e feito dele seu rei. Assim, Max também é feito rei de tais monstros e sua primeira ordem é que comece a bagunça geral!

Cada um dos monstros apresenta características distintas, um sendo mais impulsivo, outra mais agressiva, um inseguro e carente, outro melancólico e calado, um mais comedido, outro mais inventivo; e assim Max vai aprendendo a conviver com cada um deles, ficando mais próximo de Carol, o monstro mais impetuoso que despertou sua compaixão ao chegar na ilha. KW, que havia se isolado do grupo antes da chegada de Max, é a criatura mais carinhosa e compreensiva, que acolhe o garoto – a cena dela engolindo-o e depois o retirando-o de dentro de si é bastante representativa, mas acho que não preciso mais falar do que cada monstro simboliza: já dá para entender claramente do que o filme se trata, o que tudo aquilo a que assistimos significa. Quando compreendi o Max, chorei. Me vi naquela criança, durante minha infância, tendo que enfrentar meus monstros para crescer e amadurecer. Era preciso.

Onde Vivem os Monstros é isso: um filme sobre infância, crescimento, imaginação e amadurecimento, que causa impacto em quem se indentifica com a trajetória de Max e desperta um sentimento nostálgico que vem de lugares muito profundos do nosso ser. O conceito utilizado é o mesmo visto de maneira mais leve e engraçadinha em Divertidamente, que transforma as emoções em seres falantes e com vontade própria. O final é uma covardia (no bom sentido); me senti sendo desafiada a não chorar diante de tamanha intensidade de emoções vistas na tela e brotando em mim, e é claro que eu perdi, eu sempre perco. Já assisti mais de 10 vezes e em todas elas eu choro, em todas elas eu volto a ser criança e experimento todos os medos e confusões que a vida trouxe enquanto seguia por caminhos que não dava pra controlar.

Ainda não dá pra controlar definitivamente, acredito que nunca dará, mas a forma como me conheço hoje faz com que eu consiga lidar melhor com cada insegurança e obstáculo que aparece (amadurecer não é isso?). É bom fazer o exercício de olhar para trás e observar o que foi aprendido; olhar para si e entender o que te fez e continua te fazendo ser quem você é. Onde Vivem os Monstros é um filme que pode te ajudar a fazer isso. Para te dar mais um empurrãozinho, fique com um trecho de uma música de  Los Hermanos, chamada De Onde Vem A Calma, que diz: “Eu não vou mudar, não/ Eu vou ficar são/ Mesmo se for só/ Não vou ceder/Deus vai dar aval sim/O mal vai ter fim/E no final, assim, calado/ Eu sei que vou ser coroado/ Rei de mim”, que tem tudo a ver com o que o filme mostra e as sensações que provoca na genteVamos lá, embarque nessa aventura. Revisite-se.

Um bom filme pra você!

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Nome original: Where the Wild Things Are (Alemanha| Austrália| EUA, 2009)

Direção: Spike Jonze

Roteiro: Spike Jonze e Dave Eggers

Gênero: Aventura| Drama

IMDB: 6,8

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