Volver

Raimunda (Penélope Cruz) uma jovem mãe, bastante trabalhadora e atraente, guarda um segredo terrível desde sua infância. Vive com Paco (Antonio de la Torre), seu marido desempregado e Paula (Yohana Cobo), sua filha em plena adolescência. As finanças familiares não vão muito bem, e assim Raimunda tem diversos empregos. Sua irmã Sole (Lola Dueãns) é um pouco mais velha e ganha vida com um salão de beleza ilegal, tendo sido abandonada pelo marido. Elas nasceram em uma aldeia castigada pelos ventos leste, a causa direta do alto índice de insanidade registrado lá e responsável pelos diversos incêndios que devastam a área em todos os verões, um deles tendo causado a morte dos pais de Raimunda e Sole. As duas irmãs vivem situações inesperadas, intensas, melodramáticas, cômicas e emocionantes.

Para ver o trailer, clique aqui (sem legenda)

 

Pedro Almodóvar é conhecido por retratar o universo feminino com delicadeza e ao mesmo tempo mostrando a força das mulheres diante dos desafios impostos pela sociedade que insiste em oprimí-las. Em Volver, o diretor mostra essa força através da perspectiva de três gerações de mulheres de uma mesma família, que sofre com a opressão masculina de diferentes formas mas ainda assim consegue se sobressair diante das desgraças que surgem, impostas por seus pais ou maridos. Os homens  aqui são meros coadjuvantes que só servem para mostrar o quanto cada uma daquelas mulheres consegue sobreviver sem eles após os estragos que eles causam; a função dos homens é reduzida a um motor de desenvolvimento das personagens femininas, e eles desaparecem tão rapidamente quanto sua função é cumprida.

Volver, como o nome diz (significa voltar em espanhol),  fala sobre retornos, não apenas ao passado que insiste em marcar presença, nem somente ao retorno místico de alguns mortos que precisam cumprir sua missão e conseguir perdão, mas também à volta de problemas que se perpetuam na vida daquelas mulheres e a possibilidade de segundas chances para cada uma. É interessante notar que Paula, filha de Raimunda e neta de Irene (Carmen Maura), reúne as características e traumas da mãe e da avó, como se Almodóvar quisesse demonstrar que a trajetória da vida é cíclica, e essas mulheres sempre dão um jeito de dar a volta por cima e continuar vivendo sem os homens que as machucam e oprimem, descartando-os como os seres danosos e desnecessários a seu progresso que são.

As cores utilizadas (com predominância do vermelho) reforçam a ideia da força e resistência femininas ao longo de acontecimentos desastrosos, demonstrando que as mulheres permanecem, enquanto todos os homens que interferem negativamente em seu desenvolvimento se vão – como peças descartáveis. Raimunda canta a música de mesmo nome do filme, com a letra que diz  “Volver/ con la frente marchita/las nieves del tiempo/platearon mi sien sentir/que es un soplo la vida/que veinte años no es nada/que febril la mirada/errante en la sombra/Te busca y te nombra vivir/ con el alma aferrada/ a un dulce recuerdo/ que lloro otra vez/Tengo miedo del encuentro/con el pasado que vuelve/ a enfrentarse con mi vida/ Tengo miedo de la noche/ que pobladas de recuerdos/ encadenan mi soñar” – e a cena arranca lágrimas, pois sabemos o quanto tudo que é dito e cantado com tamanha emoção está relacionado com aquela mulher, que não está fazendo nada mais do que cantar a tragédia e sofrimento da própria vida.

Almodóvar disse ter se inspirado em sua mãe, já falecida, sobre quem ele revela ser reconfortante pensar na presença a seu lado mesmo após a morte, no Surrealismo e no Neorrealismo italiano, referenciando também as musas italianas do cinema da década de 1950 para compor a personagem vivida por Penélope Cruz, que surge maravilhosa e exuberante à nossa frente, com decotes que a valorizam sem vulgarizar e uma postura sempre altiva e vigorosa diante das adversidades.  A exibição de um trecho do filme Belíssima (1951), do italiano Luchino Visconti, também não é gratuita, está ali por um motivo, que é se relacionar diretamente com o enredo de Volver.

Volver tem um roteiro redondo, que trata de temáticas fortes – como abuso sexual e perdão/absolvição  – com leveza, belas surpresas, reviravoltas, um toque sobrenatural e algumas pitadas deliciosas de humor. O filme nos faz sentir emoções diversificadas, passeando entre a alegria, a raiva, o nojo, a angústia, a dúvida, a saudade, a compaixão (coitada da Agustina! :/, interpretada por Blanca Portillo) e principalmente a empatia, nos fazendo colocar no lugar daquelas mulheres, presenciando suas dores e ainda assim acreditando que é possível reparar os erros próprios e alheios e continuar vivendo apesar dos pesares. A frase final, dita por Irene “Não me diga isso senão vou chorar, e fantasmas não choram” resume todo a explosão de sentimentos que nos invadem ao assistir filme tão cheio de significado em mais uma reverência de Almodóvar  às mulheres.

Um bom filme pra você!

 

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Nome original: Volver (Espanha, 2006)

Direção e Roteiro: Pedro Almodóvar

Gênero: Comédia| Crime| Drama

IMDB: 7,6

 

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Um comentário sobre “Volver

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