Triângulo do Medo

Quando Jess (Melissa George) parte para o alto mar com um grupo de amigos a bordo de um veleiro, ela tem o pressentimento de que algo está errado. Seus temores se confirmam quando uma tempestade atinge a embarcação deixando-os à deriva. Em seguida, um misterioso navio aparentemente abandonado surge e embarcar parece ser uma boa ideia. Logo, todos perceberão que não estão sozinhos e que alguém está caçando os novos tripulantes, um a um.

Para ver o trailer, clique aqui

OBS: Tem na Netflix

Triangle (que no Brasil virou Triângulo do Medo e é assim que vai ser chamado ao longo do texto) é um de meus filmes amorzinhos que descobri antes de cair nas graças de todo mundo – em 2010, logo após seu lançamento em dvd no Brasil – e mantinha guardado egoisticamente só pra mim, até a internet e a Netflix atrapalharem meus planos e isso passar a não ser mais possível hahaha. Triângulo do Medo ficou popular e caiu no gosto de muita gente (sendo odiado por outro tanto de gente também) e dessa forma, nada mais justo que recomendá-lo aqui no 1 bom filme.

Triângulo do Medo começa com Jess levando Tommy (Joshua McIvor), seu filho autista, para a escola antes de encontrar o amigo Greg (Michael Dorman), que a convidou para fazer um passeio num veleiro. Na marina, Jess encontra Victor (Liam Hemsworth), amigo de Greg e conhece Sally (Rachel Carpani), Downey (Henry Nixon) e Heather (Emma Lung), também amigos dele que irão acompanhá-los. Jess está aparentemente abalada e cansada e logo tira um cochilo. Tudo ia bem até que o vento some quando já estão em alto mar e eles se deparam com uma tempestade se aproximando. Conseguem contatar a guarda costeira, que diz não ter encontrado nada de anormal. A tempestade os atinge e destrói o barco, deixando-os à deriva.

Sem mais o que fazer, eles aguardam algum resgate e então avistam um navio, já bem perto de onde estão. Vêem que alguém os observa e acreditam terem tirado a sorte grande. Porém, ao entrarem no navio, eles se dão conta de que este está vazio e a pessoa que avistaram não apareceu. Sally vê sangue em um dos corredores  e segue seu rastro, indo parar no teatro. Jess vê Victor coberto de sangue e em seguida ouve um disparo. O suspense só aumenta, tudo desperta cada vez mais curiosidade à medida que vai perdendo o sentido, e o espectador fica tão desgraçado da cabeça confuso quanto Jess e seu companheiros, que vivenciam um verdadeiro terror psicológico.

Recomendo que não tente achar explicações científicas para entender Triângulo do Medo. Esqueça a Física, as teorias do Triâgulo das Bermudas, paradoxos, distorções e desdobramentos do tempo: a explicação de Triângulo do Medo é filosófica, tendo sua base em dois personagens da mitologia grega citados no filme. Por isso, é necessário que você preste muita atenção aos diálogos, pois são eles que respondem algumas das principais perguntas que o filme gera, e também aos objetos de cena, responsáveis por fazer tudo o que pode ser deduzido se encaixar, ajudando aos poucos a elaborar algumas teorias a respeito do que realmente está acontecendo. A ideia lembra um pouco a de Crimes Temporais e A Outra Terra, onde a ciência é apenas o plano de fundo para o desenrolar dos fatos e o porquê não é explicado cientificamente (e os filmes também não fazem qualquer esclarecimento sobre a cientificidade) .

Algo que me deixou bem triste quando fui procurar comentários a respeito de Triângulo do Medo e teorias diferentes da minha, foi ver a quantidade de gente criticando o filme por deixar o final aberto, argumentando que “é fácil criar um filme sem lógica nenhuma e deixar que o espectador tire suas conclusões”. Vi até mesmo algumas pessoas dizendo que “quem diz entender o filme está mentindo”. Ora, comecemos pelo princípio: fazer um filme com final aberto não é fácil quanto pensam. Já imaginou o trabalho que dá escrever uma história completa e depois ir recortando ela deixando apenas algumas pistas que ajudam na resolução do enigma proposto? Assim como os livros, nenhum roteiro de filme é feito sem o final. O que há é uma clara intenção de que o final escrito não seja óbvio e que o espectador faça o exercício de encontrar as respostas e juntar as peças – formadas por objetos de cena, diálogos, expressões, iluminação, enquadramentos, fotografia, figurino, maquiagem e tantos outros elementos possíveis. Fazer um filme cuja intenção é que o espectador perceba quais elementos vão ajudá-lo a entender o que se passa dá trabalho. Não é apenas uma história: é a construção visual dela. Eu já falei em outro texto mas não custa repetir: nada em um filme está ali por acaso. Nada.

Em Triângulo do Medo é prazeroso ir percebendo cada coisinha que foi pensada meticulosamente para se relacionar com a trama, como  o brinquedo do filho de Jess que é um barco a vela igual ao que ela embarca com os amigos para o passeio; o veleiro se chama Triangle; as gaivotas que aparecem em cena que também estão em um quadro na casa de Jess; o pedido de desculpas dela a Greg antes de entrarem no veleiro; a gaivota voando quando iniciam o passeio; o vento que para de soprar de repente; o nome e a decoração do navio; a explicação de Sally diante dos quadros do navio que mostram figuras mitológicas gregas; o relógio de Jess parado marcando o mesmo horário do relógio do navio; o número de um dos quartos do navio que é igual ao número da casa de Jess (237, que por sua vez remete ao filme O Iluminado); os momentos em que a Jess dorme; o bumbo com o símbolo do navio na cena final; a fotografia que escurece repentinamente quando uma certa pessoa aparece por trás de Jess pouco antes de o filme acabar. Além de tudo isso, ainda tem os vários espelhos espalhados pelo navio e sua interação com a personagem principal através dos ângulos filmados. Tudo está ali do jeito que está por algum motivo. Não é aleatório, não é sem lógica, portanto não deve ser tão fácil quanto pensam fazer algo assim.

Quanto a quem proclama que ninguém seria capaz de entender um filme como Triângulo do Medo – que é até fácil diante de outros parecidos – além do imenso equívoco de não acreditar que alguém possa ter entendido, no mínimo deve estar acostumado apenas a filmes mastigados que explicam cada passo dado. A atividade de assistir a um filme é muito mais do que sentar a bunda na poltrona comendo pipoca e tomando refrigerante com o cérebro em stand by esperando que tudo seja resolvido pela projeção; o cinema é também um exercício cooperativo, que conta com a participação do espectador através de sua percepção, entendimento, reflexão. Claro que não é preciso esclarecer que todo mundo tem direito de gostar do tipo de filme que quiser, assim como todo mundo tem a liberdade de não gostar de algum filme – ou de finais abertos (embora mesmo sem gostar seja possível admitir que às vezes existem elementos interessantes na obra).

O problema aqui é criticar um filme pensado e produzido com tanto cuidado só porque não quis fazer nenhum esforço para entendê-lo. E pior: diminuir e ofender todos aqueles que acharam o filme legal (vi gente chamando quem se ocupou em comentar e debater suas deduções de otários, por exemplo). Mas tenho certeza que pessoas assim são minoria e que os leitores desse blog admiram e respeitam o cinema em todas as suas formas, do mesmo jeito que aceitam opiniões contrárias às suas sem desrespeitar ninguém. O que estou fazendo agora é refutando comentários vazios e depreciativos – sem nenhuma argumentação convincente – pois isso não acrescenta nada. Meu objetivo com o blog é compartilhar conhecimento e diversão, contemplando tanto cinéfilos apaixonados que sabem tudo da teoria do cinema, bem como espectadores que não sabem nada de teoria cinematográfica mas têm prazer em assistir a filmes. Esses últimos, espero que possam aprender ao menos um pouco com cada texto e cada dica que preparo com todo o amor e admiração que tenho pela sétima arte.

Desabafo feito, voltemos ao que interessa: Triângulo do  Medo não é perfeito. Alguns defeitos podem ser encontrados aqui e ali (os efeitos gráficos das gaivotas e do navio são visíveis; tem uma cena que se estiver prestando muita atenção você vai descobrir facilmente um dos primeiros mistérios apresentados), uma explicação que falta, um detalhe que não sei se pode ser considerado furo mas prejudica um pouco a continuidade. (se quiser saber quais são esses aspectos, saber minha teoria ou debater a sua, não dê spoilers no comentário: entre em contato clicando aqui)

Enfim, Triângulo do Medo não é um filme fácil que se assiste num momento qualquer, e pela atenção e esforço que demanda pode não agradar a todo mundo. Por isso, convém avisar que quem não gosta de queimar neurônios assistindo a um filme que não vai te dar todas as respostas, é melhor passar bem longe. Já quem curte não apenas finais abertos, como também se sentir parte da história tentando decifrar a solução e continuar pensando no filme mesmo depois de ele acabar, Triângulo do Medo pode ser uma experiência satisfatória e empolgante.

Um bom filme pra você!

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Nome original:  Triangle (Austrália| Reino Unido, 2009)

Direção e Roteiro: Christopher Smith

Gênero: Suspense| terror piscológico| mistério

IMDB: 6,9

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2 comentários sobre “Triângulo do Medo

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