Jackie Brown

Jackie Brown (Pam Grier) é uma aeromoça de 44 anos, funcionária de uma companhia aérea de segunda linha, que reforça o seu baixo salário transportando dinheiro sujo de um traficante de armas, Ordell Robbie (Samuel L. Jackson). Um dia, Jackie é pega por policiais com uma alta quantia em dinheiro e um pacote de cocaína na mala. Em troca de sua liberdade, ela decide fazer um acordo com os policiais. Adaptado do romance Rum Punch, de Elmore Leonard.

Para ver o trailer, clique aqui

OBS: Tem na Netflix

Quem me conhece sabe que o meu diretor favorito é o Quentin Tarantino. Meu TCC foi sobre os anti-heróis de seus filmes, representados pelas figuras de Vincent Vega (Pulp Fiction) e Aldo Raine (Bastardos Inglórios). Os dois são meus filmes favoritos e se eu tivesse que fazer um ranking eles ocupariam as primeiras posições. O que talvez não saibam é que junto a eles, logo em 3º lugar, eu colocaria Jackie Brown, que por sinal é também o 3º longa do diretor. O filme não segue a linha dos dois primeiros, o que gerou uma certa decepção no público, e esse ao que parece é seu único problema: vir depois de duas obras-primas que mudaram os rumos do cinema independente norte-americano.

Não é que Jackie Brown não seja tão bom quanto Cães de Aluguel e Pulp Fiction; é apenas diferente e mais sereno, o que faz com que muitos não vejam a força do filme e tudo que ele traz embutido. A começar pela protagonista feminina que comanda toda a ação em meio a criminosos e policiais. Tudo faz parte do plano de Jackie, a fim de se safar de um destino ainda mais cruel para uma mulher de sua cor e idade nos EUA, diante da possibilidade de ser presa pela 2ª vez e perder a vaga no único lugar que a empregaria, uma companhia áerea fajuta com baixo salário.

É relevante abrir aqui um parêntese para exaltar a força das personagens femininas de Tarantino. Apesar de ter iniciado a carreira com um filme totalmente composto por homens (Cães de Aluguel) e duas principais presenças femininas em Pulp Fiction – uma apenas para representar um possível conflito entre Vincent Vega (John Travolta) e seu chefe e a outra como pretexto para Butch (Bruce Willis) ter que voltar ao apartamento para pegar o relógio – as mulheres, quando passaram a ter maior expressão nos filmes de Tarantino, vieram para representar uma espécie de poder feminino, sem estarem subordinadas a relações amorosas nem a atividades comumente associadas ao sexo feminino.

As mulheres dos filmes de Tarantino não estão presas a atividades domésticas nem atrás de relacionamentos, e sim de realizações pessoais em outras áreas. Elas são fortes, decididas, vão em busca de seus objetivos e resoluções de seus impasses, com pouco ou nenhum interesse em romances e geralmente sem confiar muito em ninguém, apenas conquistando aliados para auxiliá-las em pontos específicos de seus planos. Em Jackie Brown, Jackie elabora o seu plano sozinha e manipula todos os homens ao seu redor a fim de concretizar seu objetivo de fugir com o dinheiro de um deles e escapar da prisão.

O filme também é um resgate dos blaxploitation, um movimento cinematográfico surgido na década de 1970 nos EUA, com filmes realizados e protagonizados por diretores e atores negros, tendo os negros norte-americanos como público alvo. O termo blaxploitation é uma junção de black (“negro”) e exploitation, termo para filmes de orçamento reduzido com temáticas pouco usadas no cinema tradicional, por representarem tabus sociais, como a violência, sexo, nudismo, o uso de drogas de maneira sensacionalista, etc.

 Exploitation é traduzido como “exploração” e revela bem o caráter exagerado do conteúdo e estética desses filmes, apontando para duas das características mais marcantes da estética tarantinesca: o uso abundante de sangue e cenas de violência. Jackie Brown, apesar de não ser um verdadeiro blaxploitation, é totalmente inspirado no gênero e resgata elementos e nomes da época, como a própria Pam Grier, um dos símbolos do blaxploitation, consagrada em filmes como Foxy Brown, de 1974, onde ela viveu a protagonista-título (percebe a semelhança dos nomes? Pois é, no livro de Elmore Leonard a personagem é branca e se chama Jackie Burke; Tarantino fez as alterações).

Jackie Brown se desenvolve de maneira linear e tem um ritmo diferente de Cães de Aluguel e Pulp Fiction; é mais lento, com menos sangue e violência explícita, mais maduro e sério, sem apresentar a ironia e o tom cool de seus antecessores. É um filme com uma visão mais realista, onde seus personagens vivem um cotidiano desencantado e difícil, sem glamour, já marcados pelo passado que insiste em se fazer presente, lutando para fugir de um destino melancólico ou resignados com o que a velhice lhes reserva, mas nem por isso é inferior aos outros dois.

A qualidade é a mesma e as marcas de Tarantino continuam lá: os excelentes diálogos, as atuações memoráveis (Samuel L. Jackson, Michael Keaton, Bridget Fonda, Robert De Niro, Robert Forster – indicado ao Oscar de ator coadjuvante), a trama recortada por flashbacks  e flashforwards mostrando diferentes pontos de vista, o jogo do narrador com o público, enfim, Jackie Brown infelizmente é o filme mais subestimado de Tarantino, mas não deixa de ser outro grande exemplar da genialidade do diretor. Seu único pecado é suceder dois filmes que tanto surpreenderam e movimentaram o mundo do cinema.

Um bom filme pra você!

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Nome original: Jackie Brown (EUA, 1997)

Direção e Roteiro: Quentin Tarantino

IMDB: 7,5

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