Zuzu Angel

Cinebiografia da estilista brasileira Zuzu Angel, famosa não apenas pelo mundo da moda, mas por sua procura pelo filho, Stuart Angel Jones, tratado como desaparecido político durante o regime militar.

Para ver o trailer, clique aqui

Hoje a estilista brasileira Zuleika Angel Jones, mais conhecida como Zuzu Angel, estaria completando 95 anos. Em sua homenagem, recomendamos um filme que, apesar de mediano, mostra um importante pedaço da chamada “história proibida” do Brasil, durante os 21 anos em que o país viveu sob o regime da ditadura. Em meio a tantas histórias que permanecem ocultas, o filme Zuzu Angel cumpre seu papel de contar o que aconteceu com um dos inúmeros presos e desaparecidos políticos do período ditatorial e de mostrar a luta de uma, entre tantas mães, para encontrar seus filhos desaparecidos na época.

Zuzu Angel, interpretada por Patrícia Pillar, era uma modista de sucesso, que havia se casado com o americano Norman Angel Jones em 1947 e tinha 3 filhos, duas meninas e um menino, chamado Stuart Edgar. Adulto, Stuart ingressou na faculdade de Economia na UFRJ e virou militante durante o regime militar, atuando ao lado de Carlos Lamarca, líder do MR-8, grupo revolucionário de esquerda. Stuart acabou sendo preso no dia 14 de maio de 1971, em seguida torturado e morto – o que o regime negava, insistindo em tratá-lo como “desaparecido político”. O filme mostra a busca de Zuzu pelo filho e posteriormente por seu corpo, depois de receber uma carta de um preso político ( Alex Polari) dizendo que havia ficado na cela ao lado da de Stuart, descrevendo as torturas e a noite de sua morte.

Com apoio de personalidades de quem era próxima, como Elke Maravilha (vivida por Luana Piovani – a verdadeira Elke faz participação especial) e Chico Buarque, Zuzu permaneceu com sua busca, conseguindo alcançar visibilidade entre políticos americanos. Como não se podia “falar mal” do Brasil em solo estrangeiro, Zuzu fez um protesto político na casa do cônsul-geral do Brasil em Nova York – tecnicamente território brasileiro – durante o desfile de lançamento de uma de suas coleções. As roupas do desfile continham estampas de pássaros presos em gaiolas, meninos aprisionados, crucifixos, além de quepes e tanques de guerra borbados e faixas de luto usadas pelas modelos, tudo simbolizando o filho.

Sabendo do risco que corria em se opor às autoridades brasileiras, Zuzu chegou a escrever uma declaração que entregou a Chico Buarque, onde dizia que se aparecesse morta por acidente ou outro meio, teria sido obra dos assassinos de Stuart. Chico chegou a distribuir a declaração, mas nenhum jornal publicou. Tempos depois, em 14 de abril de 1976, Zuzu morreu em um acidente no túnel Dois Irmãos, na zona sul do Rio Janeiro (o túnel hoje leva seu nome). 22 anos após o acidente, a Comissão Epecial dos Mortos e Desaparecidos Políticos concluiu, através de perícias e com depoimentos de testemunhas, que Zuzu na verdade sofreu um atentado e foi assassinada.

O filme tem vários problemas, como as atuações fracas – muitas vezes com entonações e falas muito teatrais; decisões ruins, como flashbacks deslocados que confundem o espectador e momentos de narração desnecessária, sob o pretexto de uma gravação feita por Zuzu; além da relação superficial entre ela e o filho e suas divergências pouco exploradas. Patrícia Pillar não passa tanta emoção quanto poderia (e deveria) e Daniel Oliveira, que interpreta Stuart, parece perdido em um personagem sem força alguma, que não consegue inspirar nem motivar a abraçar sua causa (embora as cenas da tortura porque passou sejam angustiantes).  Mesmo assim, Zuzu Angel é válido pela história que conta e recria, com alguns bons instantes e diálogos inspirados que trazem reflexão, apesar de muitos parecerem frases feitas.

Como exemplo do que é realmente bom em Zuzu Angel, além é claro de seu valor histórico e denunciador, vemos o trecho do diálogo da Zuzu sobre o Brasil ser o país do futuro: “Futuro sem meu filho e sem os filhos de outras pessoas”, se referindo aos inúmeros presos torturados e mortos (muitos nunca foram encontrados); a frase dita no tribunal quando ela é advertida que pode ser presa por desacato:” desacato é impedir o direito sagrado de uma mãe enterrar seu filho!”; a cena do avião, onde ela toma o microfone da aeromoça na chegada ao Rio de Janeiro: ” esse paraíso que vemos pela janela está marcado por crimes vergonhosos”, e também quando conversa com um dos generais que acusa de torturar Stuart: “os seus filhos devem estar indo à praia e a festinhas. O meu, foi torturado e morto”.

O final de Zuzu Angel também nos reserva duas gratas surpresas: uma nos créditos, com a música Angélica – que Chico Buarque compôs em homenagem à Zuzu  ( “Quem é essa mulher/ que canta sempre o mesmo estribilho?/ Só queria embalar meu filho/ que mora na escuridão do mar”) e na cena que antecede os créditos, quando tentam desligar o toca-fitas do carro de Zuzu após o acidente e ele está travado, sem parar de tocar a música Apesar de Você, de Chico Buarque, um dos hinos contra a ditadura – proibida de ser executada durante o o governo do general Médici: “Apesar de você/ Amanhã há de ser outro dia/ Eu pergunto a você/ Onde vai se esconder /Da enorme euforia /Como vai proibir/ Quando o galo insistir /Em cantar/ Água nova brotando/E a gente se amando sem parar.”. Uma mensagem clara que todos devem receber como um clamor de que aqueles 21 anos não se repitam jamais.

Um bom filme pra você.

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Nome original: Zuzu Angel (Brasil, 2006)

Direção: Sérgio Rezende

Roteiro: Sérgio Rezende e Marcos Bernstein

IMDB: 6,9

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