Irreversível

Eventos ao longo de uma noite traumática em Paris mostram, em ordem cronológica inversa, como Alex (Monica Belucci) acaba sendo brutalmente estuprada por um estranho numa passagem subterrânea e a busca de vingança por parte de seu namorado Marcus (Vincent Cassel) e seu amigo Pierre (Albert Dupontel).

Para ver o trailer, clique aqui

 

Esse certamente não é um bom filme. Quer dizer, ele é um filme certamente genial. Mas certamente não é um filme fácil de assistir. É um filme indigesto. Incômodo. Desconfortante. Perturbador. Os créditos ao contrário, com letras espelhadas e aos poucos entortando na tela dão uma ideia do que vem pela frente. Ou melhor: o que vem de trás pra frente, pois Irreversível começa pelo final e termina no início dos acontecimentos que levaram àquele fim. A frase “Quer saber? O tempo destrói tudo” que é dita nos primeiros minutos nos prepara para o que há de vir. É preciso entregar muitos detalhes do filme (spoilers – inclusive do acontecimento principal) para conseguir falar sobre ele. Adianto que esse não será um texto curto, pois é uma espécie de “guia” para o entendimento dos recursos utilizados e uma análise de suas intenções (efeitos desejados).

Irreversível é recheado de planos-sequência (totalmente sem cortes), onde cada transição de cena ocorre para demarcar o fim de um acontecimento e o início de outro – por isso as cenas são longas. Jogos de câmera – que a deixam girando pelos ambientes, fora de enquadramento, torta, de lado, de cabeça pra baixo – cumprem o papel de causar muito desconforto, confusão e agonia, nos transportando para o estado emocional dos personagens mas também nos fazendo sentir vontade de parar de ver. Saiba que vale a pena continuar, pois assim entenderemos a desconstrução que os personagens passam até ali e os motivos pelos quais nada voltará ao normal na vida deles – os danos são de fato irreversíveis em determinados casos.

A conversa que acompanhamos nos minutos iniciais cita Mefistófeles – pra quem não sabe, uma das representações de Lúcifer, que captura almas inocentes através da sedução e encanto roubando corpos humanos atraentes (definição da Wikipedia). Isso não está ali em vão; tem a ver com o principal acontecimento do filme, que leva a todo o caos que ocorre depois.  Em seguida ouvimos que “a gente precisa recomeçar. Precisa lutar, precisa viver. Continuar lutando, continuar vivendo” e depois passamos a acompanhar o pandemônio que ocorre próximo dali, na Rectum, uma boate gay.

A câmera continua frenética ao adentrarmos a boate junto com Marcus (Vincent Cassel) e Pierre (Albert Dupontel), que neste momento não sabemos ainda quem são. Sabemos que estão ali em busca de alguém chamado La Tenia (Jo Prestia). Marcus está totalmente descontrolado. Somos expostos a cenas de sexo explícito, apetrechos sexuais, gemidos e frases obscenas, tudo com a câmera frenética acompanhada de uma trilha de sirene intermitente e extremamente incômoda, causando tontura. Está claro que aquele é um lugar onde se vai atrás de sexo, e a presença de Marcus e Pierre aguça alguns dos presentes. Momentos depois, presenciamos uma das cenas de agressão mais pesadas que já vi em um filme. Está óbvio que o diretor não quer poupar o espectador de nada, não quer esconder nada. Ele quer mostrar as coisas como de fato elas são: o sexo, a violência.

Mais uma transição e agora vemos Marcus e Pierre saindo de um local e descobrindo que “uma prostituta foi estuprada”. A câmera já não está inquieta. Ao saberem que conheciam a vítima (Alex, namorada de Marcus), eles ficam estarrecidos e logo são abordados por alguém que se oferece para ajudar na vingança contra o estuprador: “a gente acha que só acontece com outros. Quando acontece, a gente perde o rumo”. A câmera então volta a se movimentar confusamente, demonstrando o atordoamento de Marcus perante a descoberta do que aconteceu com Alex e a trilha imita batidas de coração.

Então passamos a acompanhar Alex, que acaba de sair de um lugar e chamar um táxi, do outro lado da rua, que está bem movimentada. Uma mulher orienta Alex a ir pela passagem (um túnel) pois tentar atravessar seria perigoso. No túnel, ela vê o que aparenta ser um casal, mas logo começam a discutir e o homem agride a mulher. Alex vê a cena e tenta sair mas logo o homem a encurrala.O que vemos a seguir são 10 minutos ininterruptos da provavelmente pior e mais longa cena de estupro já produzida no cinema. É impossível não sentir raiva, nojo, indignação. É absolutamente revoltante. Horrível. E assustadoramente real.

Nos 10 minutos de horror ouvimos gritos, choro, sentimos a dor e humilhação a que aquela mulher está sendo submetida. Nao tive como evitar as lágrimas que vieram aos olhos, o coração acelerando, o corpo inteiro tremendo, a vontade de vomitar. Não bastasse a violência física extrema, Alex ainda ouve xingamentos de “porca, vadia asquerosa, cachorra” e frases como “seu namorado é viado se te deixa sair assim” e “acha que pode tudo só porque é bonita?”.  Ao final de acontecimento tão absurdamente chocante, e sabendo que acontece de verdade (a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil – saiba mais aqui), eu realmente espero que ninguém diga que ela merecia aquilo, que ela pediu, que ela queria. Ninguém quer isso, ninguém pede por isso, ninguém merece passar por isso! NINGUÉM! N-I-N-G-U-É-M!

Na festa onde Alex estava com Pierre e Marcus, esse último acaba tendo atitudes que irritam Alex e por isso ela vai embora. Pierre tenta convencê-la a ficar: “não vá, é imprudência” mas Alex não muda de ideia. Agora que você já sabe o que aconteceu depois, não é para você pensar “se ela não tivesse discutido, não teria acontecido” ou “se ela tivesse ouvido o amigo não teria acontecido”. Não tente justificar tal ato covarde de um homem simplesmente para mostrar poder, não tente culpar a Alex ou nenhuma outra garota por nenhuma violência do tipo, da qual ela é vítima. Ela não saiu querendo nada daquilo, ninguém quer. Ninguém pede pra ser estuprada, assim como ninguém pede pra ser roubado. A gente tem direito de sair e fazer o que quiser, de usar nossas coisas em qualquer lugar.

Finalmente chegamos a um ponto de tranquilidade, onde vemos Alex e Marcus deitados numa cama, nus, relaxados. Nada lembra as terríveis cenas que vimos até aqui. Não tem Marcus fora de controle; não tem Alex no chão, machucada. Há silêncio, há traquilidade, há carinho. Podemos medir a diferença entre a selvageria da cena do estupro e a calmaria de agora. Fica claro que tudo a que testemunhamos é sobre consentimento. É bom quando a gente consente, quando a gente diz sim, quando a gente quer. É ruim quando não consentimos, quando dizemos não, quando não queremos.

Numa conversa, Marcus diz que roubou Alex de Pierre, ao que ela responde: “você não roubou nada de ninguém. Eu não sou um objeto. Eu fiz tudo, decidi tudo. É sempre a mulher quem decide”. Bingo! É isso, nada mais que isso: decisão e consentimento. Nenhuma mulher decide ser estuprada: ela decide se quer ou não transar com alguém, se ela permite a esse alguém o acesso a seu corpo. Não é uma roupa, um horário ou um lugar que vai estabelecer isso: é simplesmente a vontade dela. Estamos entendidos?

* * *

A cultura do estupro desfaz tudo o que eu disse. Ela diz que a mulher é culpada, que a mulher provoca toda a violência a que é submetida. Que se ela está “sozinha, em um túnel, à noite, com aquela roupa”, ela está pedindo que qualquer coisa ruim lhe aconteça, e se acontecer, ela merece tal punição. A cultura do estupro trata a mulher como objeto ao mesmo tempo em que lhe cobra que siga uma série de regras para ser digna de valor e respeito. O termo “cultura do estupro” foi usado pela primeira vez nos anos 1970, para explicar porque estupro era um crime tão comum (saiba mais aqui).

O que podemos perceber é que tal crime não é sobre a mulher e sim sobre o objeto que acham que ela seja. Não tem a ver com desejo incontrolável, atração irresistível nem provocação. Tem a ver com poder e opressão. O estupro é uma forma de o homem demonstrar que se ele quiser, ele pode tomar qualquer mulher à força, que a mulher não tem escolha. Basta ver as diversas situações em que ocorrem estupros, as notícias sobre mulheres sendo estupradas no local de trabalho, na igreja, na escola, dentro de casa. Mulheres jovens, idosas, deficientes físicas, crianças, bebês de 1 ano de idade ou menos. Não precisa estar usando roupa curta, estar bêbada numa festa para ser estuprada. Basta que um estuprador queira estuprar e ele vai encontrar sua vítima esteja ela como for, com qualquer idade, em qualquer horário e lugar.

Não há justificativa relativizante quando uma garota de 16 anos é violentada e exposta por 33 homens. Trinta e três. Nenhum fez nada para impedir. Nenhum  achou errado, inclusive algum achou que seria bacana, porreta e legal posar para uma foto ao lado da garota desacordada, sangrando. Ela não tem culpa, eles têm. Não importa as escolhas que ela fez na vida, ela definitivamente não escolheu ser violentada por trinta e três homens. Mas esses trinta e três homens escolheram violentá-la. No filme, quando dizem que “uma prostituta foi estuprada” não é para você relativizar e pensar “ah, isso não é nada, afinal ela é puta”. É para você entender que ela consente que usem seu corpo para ter prazer. Estupro não é sobre sexo, é sobre violência. Se uma prostituta for estuprada é porque ela não consentiu que usassem seu corpo naquele momento mas usaram mesmo assim. É crime do mesmo jeito.

Outra coisa que queria comentar é quando dizem no começo do filme “vão te fazer de mulherzinha”.  A gente sabe que quando autores de crimes chocantes como estupro são presos, costumam estuprar o preso para puní-lo. Você faz ideia do quanto isso diz sobre a cultura do estupro? Quando dizem “vão te fazer mulherzinha” querem dizer que ele vai ser violentado como a mulher que ele violentou – e reforçam a ideia de que a mulher está ali pra isso mesmo, pra ser estuprada; que ela não tem controle algum sobre seu corpo. A punição para o criminoso é um estupro, assim como o estupro é considerado uma punição para a mulher. Mas vem cá: que sociedade é essa que diz que mulher merece ser estuprada, e o estuprador tem que ser punido com um estupro? Então se admite que estupro é algo humilhante, para o homem? Que fere a honra, do homem? Que é um “artifício” para diminuir o homem? Para o homem é degradante, mas para a mulher é justificável uma vez que “a culpa só pode ter sido dela”? A mulher não tem valor algum enquanto ser humano?

Bem, não tive como evitar essa reflexão e não seria eu se simplemente deixasse para lá e não tocasse no assunto que chocou o país durante a semana passada. Gostaria com esse filme e esse texto, de convidar a todos – principalmente aqueles que ainda acreditam que a mulher tem alguma culpa quando é estuprada – a pensar em tudo que foi escrito aqui. Se a empatia não lhe for despertada espontaneamente, te peço então que imagine sua filha, sua esposa, alguém que você conhece, alguém próximo a você – ou você mesmo (a) – no lugar da Alex e da garota do Rio de Janeiro.

Quantas notícias mais serão necessárias para entenderem que a culpa nunca é da vítima? Será que precisa acontecer com você ou alguém que você conhece? Ou você acha que nunca acontecerá porque nem você nem ninguém que você conhece “dão motivo”? Você/sua filha/sua esposa/amigas/sobrinhas estudam, vão pra igreja, ficam em casa o tempo inteiro, trabalham, namoram “certinho”, são super família” e você acha que estupro só acontece com “puta e gente descuidada.” Se coloque no lugar do outro, não apenas nessa situação mas em tudo na vida. Já ouviu aquela frase “não faça com os outros o que não quer que façam com você?” Pratique sempre, afinal ninguém está livre de sofrer um ato de violência e muito menos de ser julgado erroneamente.

Veja as notícias diárias, as estatísticas. Tem crianças de um ano e meio sendo estupradas na igreja, adolescentes estupradas na escola, mulheres a caminho do trabalho às 13:30h da tarde sendo estupradas, jovens deficientes estupradas pelo tio, idosas sendo estupradas porque serviram um copo d’água! Nenhuma delas queria, nenhuma delas pediu, nenhuma delas mereceu. Quem abre a porta de casa aos 76 anos de idade querendo ser estuprada? Qual a culpa de uma menina de um ano e meio que foi estuprada e morta dentro de uma igreja? De uma adolescente de 16 anos que saiu para ver o namorado? Se você ainda acha que alguma mulher merece ser estuprada, olhe essas e outras notícias e reveja seus conceitos. Estupro não é culpa da vítima. Nunca.


 

Nome original: Irréversible ( França, 2002)

Direção e Roteiro: Gaspar Noé

IMDB: 7,4

 

 

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